adicionar aos favoritos | Curitiba/PR

25/09/2009 12:17
Há quase três meses escrevi aqui uma espécie de resenha, um post em que relacionava o livro "Cien Años de Soledad" a minha experiência até então aqui na Europa. Relendo o post, creio que pude fazer um bom paralelo entre a vida que eu levava naquela época (sim, porque 3 dias depois as coisas mudaram um pouco, já que eu consegui o emprego) e a premiada narrativa de Gabriel Garcia Marquez.
As linhas que seguem terão objetivo parecido: relacionar o livro que eu terminei de ler, "Las Venas Abiertas de America Latina", do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, com a minha vida aqui. A diferença é que analisarei não apenas o que eu estou fazendo aqui, isto é, o tempo presente; mas o que me levou a estar aqui, isto é, o passado - o porquê histórico que me levou a vir pra Europa.
Como bem sentenciou a crítica do extinto "Deutsche Volkszeitung" (Diário do Povo Alemão), "Las Venas Abiertas..." é um livro "absolutamente imprescindível para todos os interessados na América Latina". Não sei se eu sou um grande interessado na América Latina, mas certamente o era menos antes de ler o livro, que me foi presenteado pela minha amiga Anna Chamorro, no dia em que a conheci, em sua casa, naquela Verbena de San Juan (ver post do dia 24/06). Anna, que me deu o livro com a condição de eu passá-lo adiante, para alguém que o leia e faça o mesmo depois, foi uma das principais responsáveis por eu conseguir o emprego no restaurante e tem, em sua história de vida, uma fantástica experiência de dois anos como voluntária na Guatemala.
Mas por que é que alguém como a Anna - uma andaluz residente em Barcelona - foi ser voluntária na Guatemala? Porque pessoas como ela (por aqui conheci mais, no Volpa - Voluntariado Pedro Arrupe, http://www.volpa.org/) procuram compensar, de alguma maneira, a enorme dívida histórica que os países "do norte", mais especificamente os europeus e o EUA, tem para com os "do sul" - no caso, os da América Latina. E é basicamente a análise dessa dívida que trata o livro de Eduardo Galeano.
"En passant", vimos tudo isso nas aulas de história, no colégio. No entanto, o jornalista uruguaio detalha, país por país da América Latina, o quanto a interferência primeiro européia e posteriormente norte-americana foi fatal para o destino dos povos latino-americanos. A análise histórica, muito perspicaz, realça e relaciona os aspectos econômicos e políticos, principalmente. E, muito embora a versão do livro que li seja de 1977, uma reedição do livro publicado em 1970, tudo ainda é muito atual - inclusive a forma como nós continuamos sendo explorados, à mercê das principais economias mundiais.
Não me alongarei muito. Apenas creio que esse aspecto histórico, de um continente desde sempre explorado e mal-tratado, foi fundamental para que eu estivesse hoje aqui, trabalhando como garçom, ilusionado com a idéia de conhecer a Europa e sua cultura, os idiomas, etc - tal como foi quando fui aos Estados Unidos, cinco anos atrás. Aliás, se for pensar bem, não só eu; também o argentino José, a boliviana Sônia, os peruanos Alfredo e Edi, o brasileiro Nei, os venezuelanos Fernando e Cristhian... para citar só alguns dos trabalhadores que conheci, que trocaram a vida na América do Sul para viver na Europa fazendo, mais uma vez, justamente o trabalho que à maioria dos europeus "no les gusta hacer".
Como relata o próprio Eduardo Galeano, que teve seu livro censurado pela ditadura uruguaia e viveu 12 anos exilado na Argentina, esse livro "é uma busca de chaves da história passada que contribuem para explicar o tempo presente, que também faz história, a partir do fato de que a primeira condição para mudar a realidade consiste em conhecê-la". Para ele, essa realidade mostra que "o subdesenvolvimento latino-americano é uma consequência do desenvolvimento alheio, que nós latino-americanos somos pobres porque é rico o solo em que pisamos e que os lugares privilegiados pela natureza foram amaldiçoados pela história". Temos um grande potencial, afinal. Mas não enquanto a engrenagem internacional, como cita Galeano, continue funcionando: "los países al servício de las mercancías, los hombres al servício de las cosas".
Da minha parte, digo-lhes que meus objetivos aqui na Europa não mudaram - e que sim, não me importarei se tiver que continuar trabalhando em empregos que os europeus não gostam. São funções dignas como qualquer outra, afinal. Mas vejo com outros olhos algumas coisas. Por isso, recomendo a todos a leitura de mais esta "obra maestra".
Resta ainda dizer que, no início desta semana, assim que terminei "Las Venas...", fui atrás da aquisição do próximo livro que pretendo ler. E comprei, por 3 euros (pasmem!), novinho, na feira de livros que está acontecendo na mesma em que trabalho, o "Don Quijote". Não sei porque, mas tenho a impressão de que esta leitura - provavelmente a última em castellano antes de eu passar para algum livro em italiano (!) - também resultará em nova resenha aqui neste flog, mas desta vez não para falar do presente, nem do passado; mas sim, do futuro.
Que venham os próximos capítulos! (literalmente...)
beeeejoooooooooo
ps: na foto, a reunião do Volpa, da qual eu participei no dia 23 de maio.