adicionar aos favoritos | Curitiba/PR

01/07/2009 10:41
Sim, faz dois meses que embarquei rumo à Barcelona. E minha experiência tem sim semelhanças à obra de García Marquez, que me foi "regalada" (em seu idioma original e em versão comemorativa feita pela Real Academia Espanhola!) pelo meu amigo Guilhermão há exatos 60 dias, no aeroporto, e que terminei de ler na semana passada. Pensei em fazer uma resenha sobre ela, uma crítica, talvez. Decidi estabelecer uma comparação entre a novela e a (minha) vida real.
"Cem anos de Solidão", que deu em 1982 ao romancista colobiano Gabriel García Marquez o Prêmio Nobel de literatura, é um livro fantástico. Em todos os sentidos. Enquanto literatura, é isso mesmo; faltam-me melhores adjetivos, de tão necessária que é sua leitura. Enquanto história, é também um realismo fantástico, tal como nos inflava a ler a professora Marcela, nas aulas de português da oitava série da Palmares. (E que o Pedro Ivo me ajude a lembrar qual era aquele escritor que ela tanto amava, estava inclusive fazendo um mestrado sobre ele, e o qual ela nos fez ler e ouvir contos durante os dois anos que ela nos deu aula. - Mas que era muito bom sim.).
A trama toda se passa em Macondo, uma cidade fictícia em algum "rincón" da América Latina. A narrativa é linear e percorre os 100 anos (são sete gerações) desde a fundação até a extinção da vila. Assim o é também em relação à estirpe dos Buendía, protagonista da história, fundadores e últimos habitantes de Macondo. O fantástico começa aí, nessa relação íntima do que ocorre na cidade com as ações dessa família patriarcal (mas que tem nas mulheres o ponto de equilíbrio) e fadada por um destino quando não escrito, naturalmente previsível.
Úrsula, a mulher de José Arcádio Buendía, o casal de primos que dá origem à estirpe, é o fio condutor da hitória. Ao tornar-se uma anciã mais que centenária, o passa a ser também literalmente. Mas sua personagem é mais do que isso: é determinante porque capaz de determinar tudo o que vai acontecer (olho nela!, hehe..). Simplesmente porque todas as coisas passam com ela. As guerras, a loucura, o dilúvio e a seca, os períodos de riqueza e de pobreza; tudo tem ponto em Úrsula e, por consequncia, não só toda a família, como também toda a cidade, passarão por isso. E sua impressão maior, a de que as coisas são cíclicas e que parecem fazer o tempo não passar, é a síntese da história - e justamente o que a torna atemporal, atual como há 27 anos.
Mais não falarei. Poderia elucidar-lhes as reflexões que tive acerca do "olvido" (esquecimento) e por consequência, da importância de manter-se uma memória. Poderia falar-lhes sobre o quanto os Buendía refletem muito do que somos; quais as diferenças entre os Aurelianos e José Arcádios, o papel fundamental e singular de cada uma das mulheres da história e, principalmente, o quanto aquilo que vem de fora (personalizado no livro, entre outros, pelo gitano Melquíades ou pelos trabalhadores da companhía bananeira) influencia no transcorrer de uma vida. Mas deixarei para que vocês mesmos tirem suas próprias conclusões. Entre os livros que já li, já falei bem ou já recomendei (se é que o fiz) a cada um de vocês, "Cien Años de Soledad" é certamente o mais... fantástico!
Todavia... não terminei. Resta estabelecer a comparação a qual me propus. Basicamente, há três coisas que me unem aos Buendía e a vida em Macondo. A primeira delas é o quanto as coisas que vem de fora me afetam. Continuo muito ligado ao Brasil, assim como, quando estava aí, tinha muita vontade de estar aqui. Não só os assuntos, mas as pessoas que vem de fora (ou, principalmente, as que chegam a mim do exterior, através dos diversos meios de comunicação de que hoje disfrutamos), interferem sobremaneira ainda no meu agir e pensar.
A segunda, é que tenho percebido que apesar de a narrativa de minha vida ser tão linear quanto a traçada por Marquez, ela é também cíclica. Se não em minhas ações, mas muito em meus pensamentos, vejo-me voltando a ter idéias que há muito não tinha, mas que perpassaram toda a minha vida: envolver-me mais com esportes (futebol), por exemplo. Ou mesmo ter voltardo a escrever no fotolog, voltado a viajar. E voltar a me impacientar com coisas que não me impacientavam antes e, ao mesmo tempo, ter a tranquilidade de outrora (talvez de criança) para outras questões, como a roupa que vestirei, ou o jogo (Age of Empires!) que comprarei como opção a mais para ver meu tempo passar mais rápido enquanto estou em casa a espera de respostas dos currículos que diariamente distribuo...
Finalmente, a terceira relação, e essa é menos profunda, está no título deste post. Sinto-me, na maioria das vezes, muito só. Isolado. Tal como os habitantes de Macondo, eu poderia estar em outros lugares, fazendo outras coisas. Mas preferi estar aqui e viver essa experiência. Tudo bem que não são cem anos, mas sessenta dias de uma solidão que me exigiu e continuará me exigindo muito; um equilíbrio que, agora me dou conta, nem sempre tenho - mas que, de certa forma, a cada dia estou mais preparado para ter. Ou não.
Enfim, como eu disse, basicamente é isso. Se for destrinchar bem, e se eu não me incomodasse em escrever muito mais, talvez houvesse mais um ou dois pontos de convergência entre a minha trajetória e a dos personagens de García Marquez. A verdade é que também não quero ter a petulância de comparar minha curta trajetória de dois meses aqui em Barcelona (que em nada se parece, enquanto cidade, a Macondo) ao século retratado em um prêmio Nobel - muito embora minha experiência aqui também esteja sendo... fantástica!
É isso.
Beeeejooooooooooooooooooooo